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A advocacia brasileira é mais forte do que parece. O problema é que ainda não consegue provar. O fator Mattos Filho

3 de set.
6 min de leitura

A advocacia brasileira produz mais do que parece. O problema é que ainda não consegue provar.

O maior escritório jurídico do mundo faturou US$ 10,6 bilhões em 2025. O maior escritório de advocacia brasileira (Mattos Filho) a divulgar publicamente seus resultados registrou receita bruta de R$ 1,78 bilhão, equivalente a aproximadamente US$ 318 milhões pelo câmbio de R$ 5,59 adotado no levantamento da Análise Editorial.


À primeira vista, a comparação entre Kirkland & Ellis e Mattos Filho apenas confirma uma distância conhecida. A banca americana faturou 33 vezes mais. Reuniu 4.239 advogados, ante aproximadamente 700 no escritório brasileiro, e contou com 595 sócios de equity, em comparação com 138.

Mas números absolutos contam apenas parte da história.


Quando o desempenho é relacionado ao tamanho das economias nas quais as duas organizações operam, a distância muda de proporção. É essa inversão de perspectiva que sustenta o chamado Fator Mattos Filho.


Mais do que comparar dois escritórios, o indicador expõe uma questão estrutural: o mercado jurídico brasileiro ainda sabe pouco sobre si mesmo.


O que é o Fator Mattos Filho?


O Fator Mattos Filho é um indicador criado pela Análise Editorial para estimar a dimensão econômica do topo da advocacia empresarial brasileira.


A metodologia utiliza os dados públicos de receita, número de advogados e estrutura societária do Mattos Filho como referência. A lógica é semelhante à de uma proxy: diante da inexistência de uma base abrangente sobre o faturamento dos escritórios brasileiros, uma organização com dados disponíveis funciona como unidade de comparação.


O Mattos Filho ocupa esse papel porque publica informações financeiras e operacionais em seu Relatório Integrado 2025. Essa transparência, ainda rara entre as bancas brasileiras, permite construir indicadores de receita por advogado, receita por sócio e proporção entre profissionais e sócios.

O resultado não representa a média da advocacia brasileira. Também não mede qualidade técnica, margem de lucro ou eficiência operacional. Ele oferece uma referência para estimar a ordem de grandeza do segmento mais sofisticado do mercado.


Mattos Filho e Kirkland & Ellis: o que mostram os números?

Indicador de 2025

Kirkland & Ellis

Mattos Filho

Diferença aproximada

Receita bruta

US$ 10,6 bilhões

US$ 318 milhões

33 vezes

Número de advogados

4.239

700

6,1 vezes

Sócios de equity

595

138

4,3 vezes

Receita por advogado

US$ 2,5 milhões

US$ 455 mil

5,5 vezes

Receita por sócio

US$ 17,7 milhões

US$ 2,3 milhões

7,7 vezes

Advogados por sócio

7

5

1,4 vez

Em receita por advogado, o Kirkland alcançou aproximadamente US$ 2,5 milhões em 2025. No Mattos Filho, o indicador ficou próximo de US$ 455 mil.


Na receita por sócio, a distância foi maior. Cada sócio de equity do escritório americano respondeu, em média, por US$ 17,7 milhões de receita bruta, ante US$ 2,3 milhões no brasileiro.


Esses números refletem diferenças de escala, preço, estrutura societária, carteira de clientes e presença internacional. O Kirkland opera em dezenas de jurisdições e ocupa uma posição singular em segmentos de alto valor, como private equity, reestruturações e grandes transações. O Mattos Filho, embora mantenha presença em Nova York e atuação internacional, concentra sua estrutura no mercado brasileiro.


A comparação direta, portanto, não permite concluir qual banca é mais eficiente, rentável ou tecnicamente sofisticada. Receita não revela margem. Faturamento por profissional não mede qualidade. E quantidade de advogados não explica, isoladamente, a composição dos serviços prestados.


Ainda assim, existe um número que muda a leitura.


A advocacia brasileira é mais produtiva do que parece?


Em termos absolutos, não é possível afirmar que um advogado do Mattos Filho produz mais receita que um profissional do Kirkland. Os dados mostram justamente o contrário.


O ponto relevante aparece quando a diferença entre os escritórios é comparada à distância entre as duas economias.


O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos considerado no levantamento foi de US$ 30,8 trilhões. O do Brasil, de US$ 2,3 trilhões. Nessa base, a economia americana é 13,5 vezes maior.


A receita por advogado do Kirkland, entretanto, é 5,5 vezes superior à do Mattos Filho. A diferença entre as bancas é, portanto, proporcionalmente menor que a distância econômica entre os países.


O cálculo da Análise Editorial aponta uma relação próxima de 2,5 vezes em favor do Mattos Filho quando a receita por profissional é ponderada pelo PIB de cada país.


Isso não significa que o advogado brasileiro fature mais em valores absolutos. Significa que o Mattos Filho gera uma receita por profissional maior do que o tamanho relativo da economia brasileira poderia fazer supor.


O indicador funciona melhor como uma lente de escala do que como uma medida definitiva de produtividade. Ele sugere que o topo da advocacia empresarial brasileira captura uma parcela economicamente relevante de um mercado menor, fragmentado e pouco transparente.


O maior achado não está na receita


O aspecto mais revelador do levantamento não está apenas nos US$ 318 milhões atribuídos ao Mattos Filho nem na distância para o Kirkland.


Está no fato de que o exercício depende dos dados publicados por uma única banca brasileira.


Em mercados jurídicos mais transparentes, informações de faturamento, produtividade, rentabilidade e composição societária permitem comparar organizações, acompanhar mudanças estruturais e compreender a evolução dos modelos de negócio.


No Brasil, a falta de uma base mais ampla mantém boa parte dessas análises no campo da percepção.


O setor conhece seus principais escritórios por reputação, rankings, operações assessoradas e reconhecimento de profissionais. Conhece muito menos sobre produtividade, concentração de receita, recorrência de clientes, eficiência comercial e capacidade de transformar especialização em crescimento sustentável.


Essa escassez de informações afeta a gestão dos escritórios de advocacia.


Sem referências comparáveis, cada organização avalia seus resultados dentro de uma realidade quase exclusivamente própria. A receita cresce, mas nem sempre é possível saber se avançou acima do mercado. A equipe aumenta, mas a relação entre estrutura e geração de valor permanece pouco clara. Novas áreas são abertas, embora nem sempre existam evidências suficientes sobre demanda, aderência ou potencial econômico.


Transparência, nesse contexto, deixa de ser apenas uma prática institucional. Torna-se infraestrutura para o desenvolvimento do mercado jurídico brasileiro.


Por que o Fator Mattos Filho deve ser interpretado com cautela?


Como toda proxy, o Fator Mattos Filho possui limitações.


O Mattos Filho representa o topo do mercado, não a média da advocacia brasileira. O Kirkland possui uma operação global, o que reduz a precisão de uma comparação baseada somente no PIB dos Estados Unidos. A conversão cambial também pode alterar os resultados, enquanto o uso do PIB nominal não captura diferenças de poder de compra, composição econômica ou sofisticação da demanda jurídica.


Existem ainda diferenças nos modelos de sociedade, nas áreas de atuação, na distribuição dos profissionais e na formação de preços. Esses elementos impedem que o indicador seja tratado como uma medida definitiva de produtividade.


As limitações, entretanto, não eliminam o valor da análise. Elas demonstram por que o setor precisa de mais dados.


Se dez ou vinte escritórios divulgassem indicadores comparáveis, seria possível construir séries históricas, distinguir porte de produtividade, avaliar modelos de operação e compreender melhor a economia da advocacia brasileira.


Até lá, o Mattos Filho continuará ocupando uma posição peculiar. Além de ser uma das principais bancas do país, funciona como a principal referência pública a partir da qual o mercado tenta estimar sua própria dimensão.


O que o Fator Mattos Filho revela sobre o futuro da advocacia?


O Fator Mattos Filho não oferece uma resposta final sobre a competitividade da advocacia brasileira. Ele oferece algo possivelmente mais útil: uma evidência de que o setor pode ser economicamente mais forte do que parece, mas ainda carece de transparência e inteligência para demonstrar essa força.


O próximo estágio de maturidade do mercado jurídico não será definido apenas pela adoção de novas tecnologias. Será determinado pela capacidade dos escritórios de transformar dados em contexto, contexto em prioridades e prioridades em decisões mensuráveis.


Prestígio continuará abrindo portas. Relacionamentos continuarão gerando confiança. Excelência técnica continuará sendo indispensável.


Mas o crescimento consistente dependerá da capacidade de compreender onde o escritório gera valor, quais oportunidades merecem atenção e como cada decisão contribui para o desenvolvimento do negócio.


O desafio da advocacia brasileira, portanto, não é apenas produzir mais. É aprender a reconhecer, mensurar e demonstrar o valor que já produz.


Perguntas frequentes


O que é o Fator Mattos Filho?

É um indicador criado pela Análise Editorial para estimar a dimensão econômica do topo da advocacia brasileira com base nos dados financeiros e operacionais publicados pelo Mattos Filho.


O Mattos Filho é mais produtivo que o Kirkland & Ellis?

Não em valores absolutos. O Kirkland apresenta receita maior por advogado e por sócio. O Mattos Filho se destaca quando essa diferença é relacionada ao tamanho das economias brasileira e americana.


Por que o Mattos Filho é usado como referência?

Porque é o principal escritório brasileiro a publicar regularmente informações sobre receita, número de advogados e estrutura societária, permitindo a construção de indicadores comparáveis.


O que o indicador revela sobre o mercado jurídico brasileiro?

O indicador sugere que o topo da advocacia brasileira possui relevância econômica proporcionalmente maior do que o tamanho do país faria supor. Também evidencia a falta de dados públicos sobre produtividade, rentabilidade e estrutura dos escritórios.

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